É PRECISO PARAR: UM ENSAIO SOBRE UM FUTEBOL QUE O DINHEIRO NÃO PODE COMPRAR
Por Daniel Luiz Miranda
IG: luizd.an
Twitter: DLuizMiranda
Quero, em primeiríssima instância, me solidarizar com o sofrimento trágico sofrido no Rio Grande do Sul e reverberado em todo o país. Qualquer tentativa de amenização será absolutamente inútil. Resta, aos que podem, seguir cada etapa do processo de recuperação ajudando como possível. E são várias. Do material ao afetivo. Casas, identidades, empregos, famílias, sonhos, cidades. Um estado. Vidas. E é por conta desta catástrofe - política e com culpados evidentes - causada por elementos de uma surrada e agonizante natureza, que escrevo. Este texto é sobre futebol e para quem o ama.
É preciso parar.
De tempos em tempos, a
discussão sobre paralizar ou não um campeonato acontece na América do Sul e os
motivos são diversos. No Equador, com o país à beira de uma guerra civil, não
parou. A final da Libertadores de 2018, entre River e Boca, mesmo após cenas
lamentáveis de violência de torcida contra jogadores, aconteceu. Em Madrid,
como prova de que não há distância que "a força da grana que ergue e
destrói coisas belas" não possa cobrir para o que o show não pare. O maior
caso das gerações contemporâneas é, sem dúvidas, a pandemia da Covid-19,
chegada ao Brasil no primeiro trimestre de 2020 e ainda não bem superada - ao
menos as suas sequelas, não. E que show de horrores assistimos, sobretudo do
meu time, o Flamengo, buscando forçar uma volta completamente descabida. Ou
seja, há um preço para parar ou não e há quem defina os valores. O futebol é
parável. E, outra vez, é preciso parar.
Há de se ressaltar que
esta não é uma decisão simples, mas é preciso que alguém tenha a coragem de
tomá-la. Não será a CBF. Nunca é a CBF, o país que segue dando errado. São
tantas as variáveis, compreende-se. Tantos trabalhadores da bola que não são
vistos pelas câmeras, como ropeiros, cozinheiros, seguranças etc. Ou até mesmo
tantos outros "pés-de-obra" que não defendem os maiores times do
país, mas divisões inferiores com investimentos precários. Parar seria deixar
desamparada a vasta maioria dos que dependem do futebol. Recursos podem ser
angariados para ajudar na reconstrução dos irmãos gaúchos se o futebol
continuar. Eu sei. Não vou entrar no debate sobre o que é "justo".
"Ah, a vida não pode parar", dizem alguns. Contudo, é evidente que
não seria justo que uma equipe sem treinamento, com amigos desaparecidos,
jogasse normalmente. É como exigir que estejam apartados de sua humanidade e
envolvimento emocional diante de uma tragédia. Não se trata de parar toda a
vida ou não. O futebol não pode estar alheio ao povo. O futebol é feito do
povo. Para o povo.
É preciso parar.
Primeiro, porque se o
futebol é do povo e para o povo, é o povo quem dá sentido para o certame. Sem
as torcidas ostentando as cores que melhor definem a sua identidade, cantando
os hinos da sua verdadeira pátria e empurrando os soldados em campo, remanejados
que foram para uma outra batalha, de vida e morte, como jogar futebol? Seria
mais um golpe por parte daqueles que insistem em descaracterizar o futebol,
vendendo, quase literalmente, a própria alma em nome de suposta grandeza a se
atingir. Em outra casa? Diante de outras cores? Longe do povo, que permanece em
sofrimento? Isto não é futebol. Não podemos permanecer alheios a essência do
futebol porque "o show não pode parar". Pode. Deve. Precisa. Pra que
continue havendo sentido no futebol para além de SAF's, patrocínios e
movimentações financeiras. Continuar, agora, é carimbar que o futebol não é
mais sobre pessoas, mas sobre royalties.
Depois, é preciso parar
porque são homens e mulheres, não robôs, em campo, preocupados com a família,
com os amigos, conterrâneos. Pessoas. A privação do luto é das mais cruéis
ditaduras. Como pedir que joguem uma partida de futebol os que ainda não encontraram
queridos desaparecidos? Ou os que ainda não recuperaram itens básicos de vida e
estão dependendo da ajuda de terceiros? Teremos coragem de pedir que direcionem
suas atenções para algo outro que não a busca pela reconstrução de cada pequena
nuance de suas vidas anteriores que foi levada pela água. Isso demora. Se
demora, precisa de tempo. É preciso parar.
Eu não estou dizendo que
por tempo indeterminado, mas, no momento, mesmo as opiniões mais técnicas são
obstruídas por água e lama. É preciso, pelo menos, um tempo de concentração
total em ajuda humanitária e contenção de danos, para que uma nova avaliação
seja feita em seguida e uma nova medida adequada seja tomada. Hoje, é um dia de
cada vez. As águas ainda estão longe de baixar. Em 1941, a pior enchente do
estado até então, foram necessários 32 dias para o início da avaliação em terra
firme. As previsões apontam para mais dias de chuva e intensificação do frio.
Ainda há pessoas a serem retiradas de áreas de risco. São estes que necessitam
de amparo no momento. Não a bola.
Não tenho as respostas
para todas as facetas desse caos. Mas, por solidariedade aos que têm no futebol
a sua razão de existir e não podem se dedicar a nada além de permanecer
existindo, é preciso parar.

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